Dois anos. Dois longos anos desde a briga. O que começou com uma série de desentendimentos e alguns fatores externos (vulgo fofocas) evoluiu para a falta de confiança, a briga, a perda da cabeça, e terminou no afastamento.
O aniversário dele é semana que vêm, pensou enquanto olhava pela janela do ônibus, sem ver nada. Não esquecera o aniversário do ex-amigo, assim como não esquecera a data da briga, justamente sete dias antes da festa.
Freada brusca, o motorista xinga alguém por um motivo qualquer, nada de mais. A única coisa que não se lembrava ao certo era o motivo da briga. Teria sido nada de mais? Foram tantas coisinhas, tantas picuinhas, mas nenhuma delas justificava o que havia acontecido. Se aquele somatório de pequenas coisas fez com que ambos se descontrolassem, agora já não entendia como haviam chegado a esse ponto.
O ônibus retomou o caminho enquanto a chuva caia.
- Nossa, há quanto tempo não para de chover?
Nestes últimos dois anos, ele e Marcelo haviam se visto poucas vezes. No início, seus verdadeiros amigos em comum tentaram que eles fizessem as pazes – sem sucesso quando a ferida é fresca. Depois, se acostumaram a contar com a presença de um ou de outro. Nas poucas vezes que esbarrou com Marcelo, fingiram não se ver. Era mais fácil.
Tentava evitar as poças d’água enquanto caminhava com seu guarda-chuva, após descer do ônibus. Havia se acostumado a viver sem Marcelo. Repetia a si mesmo que ele não fazia falta. Repetia isso com mais frequência do que percebia. Quando sabia de algo sobre ele por meio de seus amigos, apresentava um sorriso contido, seguido de um dar de ombros.
Faltava era luz. Seu prédio estava totalmente apagado e teria que subir os oito andares de escada. Assim que começou a subir, percebeu que não eram os erros, as mágoas ou as consequências. Eram as palavras. Aquelas palavras grossas, frias e duradoras que persistiam na memória eram o que impedia a reconciliação. Todas aquelas palavras que ressonaram em diversos ouvidos, agentes ativos ou espectadores de toda a trama, ainda pesavam. Não só as palavras que ouviu, mas principalmente as que disse. “Quero que você… Eu nunca mais vou… Não tem volta… Imperdoável… Suma… … E vocês podem anotar…”
- Maldito elevador que não funciona, agourou quando chegou ao terceiro andar. Aceitou que o tempo, como esperado, havia minguado a raiva e trouxe ao seu lado um pouco de tolerância. Reconhecia os erros que havia cometido e que sua decepção com amigo tinha passado e, apesar de não entender ao certo como tudo aquilo havia tomado tamanha proporção, compreendia as atitudes de Marcelo. Sentia (e tentava esconder do próprio orgulho) que o terreno estava sendo preparado para o perdão.
- Já estou cansado, disse ao chegar ao andar seguinte. Contudo, entendeu que o tempo, só, não conseguia retirar as palavras ditas durante a briga. Aquelas palavras representaram juras, promessas e ofensas e foram ditas no calor, repetidas a frio e relatadas para quem não estava presente. Perdoar os erros do Marcelo e assumir os seus próprios seriam sinais de grandeza de espírito, de hombridade, é claro. Mas e como lidar com tudo o que havia dito? Como apagar? Como voltar atrás depois de tantas declarações ouvidas por tanta gente? Afinal, sempre disse que era uma pessoa de palavra… E agora, se abaixasse a cabeça e aceitasse o perdão mútuo, o que os espectadores iriam pensar?
- Não aguento mais, soltou quando chegou ao sexto andar. Ele próprio não sabia se falava sobre suas pernas ou sobre estes últimos dois anos. Gostaria de voltar no tempo. Se não pudesse corrigir seus erros, pelo menos se daria um conselho: “Fale menos. Quanto menos você falar, mais fácil será para se reconciliarem depois. Por mais que, agora, você esteja seguro que não haverá volta, acredite: sempre há.” Seu orgulho seria bem menor agora.
- Ufa, cheguei. Seu andar estava iluminado apenas com as luzes de emergência. Quando colocou a chave na porta, ouviu uma voz lhe chamar. Se virou e não acreditou.
- Marcelo?, disse com um leve sorriso espontâneo e intrigado. Então, lembrou-se que estavam brigados e deixou apenas o ar de indagação.
Marcelo estava encharcado da chuva e parecia já estar aguardando há algum tempo.
- O porteiro disse que você chegava nesse horário, mas eu não lembrava se você morava no 801 ou 803, e como eu estava sem guarda-chuva, o portei…
- O que você tá fazendo aqui? – Interrompeu numa tentativa de ser ríspido que mais soou como uma expressão de extrema surpresa.
- É que semana que vem é meu aniversário…
- Eu sei, eu sei…
- E eu estava pensando, já tem dois anos, né?
- É cara, dois anos. Dois longos anos.
- Então, você não tá a fim de ir lá em casa? Eu to chamando toda a galera…
Dois segundos, um minuto, quanto tempo durou aquele silêncio? Tudo o que havia acabado de pensar estava repassando em sua mente. Então, sentiu que sabia o que fazer.
- Acho melhor eu não ir.
- Por quê?
- Você não sabe fazer festa em que vá a mulherada, pô.
Um sorriso. Um riso. Risadas leves, gargalhadas aliviadas.
A luz voltou.
Thiago Ibelli