As Palavras


Dois anos. Dois longos anos desde a briga. O que começou com uma série de desentendimentos e alguns fatores externos (vulgo fofocas) evoluiu para a falta de confiança, a briga, a perda da cabeça, e terminou no afastamento.

O aniversário dele é semana que vêm, pensou enquanto olhava pela janela do ônibus, sem ver nada. Não esquecera o aniversário do ex-amigo, assim como não esquecera a data da briga, justamente sete dias antes da festa.

Freada brusca, o motorista xinga alguém por um motivo qualquer, nada de mais. A única coisa que não se lembrava ao certo era o motivo da briga. Teria sido nada de mais? Foram tantas coisinhas, tantas picuinhas, mas nenhuma delas justificava o que havia acontecido. Se aquele somatório de pequenas coisas fez com que ambos se descontrolassem, agora já não entendia como haviam chegado a esse ponto.

O ônibus retomou o caminho enquanto a chuva caia.

- Nossa, há quanto tempo não para de chover?

Nestes últimos dois anos, ele e Marcelo haviam se visto poucas vezes. No início, seus verdadeiros amigos em comum tentaram que eles fizessem as pazes – sem sucesso quando a ferida é fresca. Depois, se acostumaram a contar com a presença de um ou de outro. Nas poucas vezes que esbarrou com Marcelo, fingiram não se ver. Era mais fácil.

Tentava evitar as poças d’água enquanto caminhava com seu guarda-chuva, após descer do ônibus. Havia se acostumado a viver sem Marcelo. Repetia a si mesmo que ele não fazia falta. Repetia isso com mais frequência do que percebia. Quando sabia de algo sobre ele por meio de seus amigos, apresentava um sorriso contido, seguido de um dar de ombros.

Faltava era luz. Seu prédio estava totalmente apagado e teria que subir os oito andares de escada. Assim que começou a subir, percebeu que não eram os erros, as mágoas ou as consequências. Eram as palavras. Aquelas palavras grossas, frias e duradoras que persistiam na memória eram o que impedia a reconciliação. Todas aquelas palavras que ressonaram em diversos ouvidos, agentes ativos ou espectadores de toda a trama, ainda pesavam. Não só as palavras que ouviu, mas principalmente as que disse. “Quero que você… Eu nunca mais vou… Não tem volta… Imperdoável… Suma… … E vocês podem anotar…”

- Maldito elevador que não funciona, agourou quando chegou ao terceiro andar. Aceitou que o tempo, como esperado, havia minguado a raiva e trouxe ao seu lado um pouco de tolerância. Reconhecia os erros que havia cometido e que sua decepção com amigo tinha passado e, apesar de não entender ao certo como tudo aquilo havia tomado tamanha proporção, compreendia as atitudes de Marcelo. Sentia (e tentava esconder do próprio orgulho) que o terreno estava sendo preparado para o perdão.

- Já estou cansado, disse ao chegar ao andar seguinte. Contudo, entendeu que o tempo, só, não conseguia retirar as palavras ditas durante a briga. Aquelas palavras representaram juras, promessas e ofensas e foram ditas no calor, repetidas a frio e relatadas para quem não estava presente. Perdoar os erros do Marcelo e assumir os seus próprios seriam sinais de grandeza de espírito, de hombridade, é claro. Mas e como lidar com tudo o que havia dito? Como apagar? Como voltar atrás depois de tantas declarações ouvidas por tanta gente? Afinal, sempre disse que era uma pessoa de palavra… E agora, se abaixasse a cabeça e aceitasse o perdão mútuo, o que os espectadores iriam pensar?

- Não aguento mais, soltou quando chegou ao sexto andar. Ele próprio não sabia se falava sobre suas pernas ou sobre estes últimos dois anos. Gostaria de voltar no tempo. Se não pudesse corrigir seus erros, pelo menos se daria um conselho: “Fale menos. Quanto menos você falar, mais fácil será para se reconciliarem depois. Por mais que, agora, você esteja seguro que não haverá volta, acredite: sempre há.” Seu orgulho seria bem menor agora.

- Ufa, cheguei. Seu andar estava iluminado apenas com as luzes de emergência. Quando colocou a chave na porta, ouviu uma voz lhe chamar. Se virou e não acreditou.

- Marcelo?, disse com um leve sorriso espontâneo e intrigado. Então, lembrou-se que estavam brigados e deixou apenas o ar de indagação.

Marcelo estava encharcado da chuva e parecia já estar aguardando há algum tempo.

- O porteiro disse que você chegava nesse horário, mas eu não lembrava se você morava no 801 ou 803, e como eu estava sem guarda-chuva, o portei…

- O que você tá fazendo aqui? – Interrompeu numa tentativa de ser ríspido que mais soou como uma expressão de extrema surpresa.

- É que semana que vem é meu aniversário…

- Eu sei, eu sei…

- E eu estava pensando, já tem dois anos, né?

- É cara, dois anos. Dois longos anos.

- Então, você não tá a fim de ir lá em casa? Eu to chamando toda a galera…

Dois segundos, um minuto, quanto tempo durou aquele silêncio? Tudo o que havia acabado de pensar estava repassando em sua mente. Então, sentiu que sabia o que fazer.

- Acho melhor eu não ir.

- Por quê?

- Você não sabe fazer festa em que vá a mulherada, pô.

Um sorriso. Um riso. Risadas leves, gargalhadas aliviadas.

A luz voltou.

Thiago Ibelli

Decididamente o Mesmo


- Mas você tem certeza?
- Muita certeza, pode cortar nessa altura.
- Amiga… Pra que toda essa mudança no visual?

Sentiu uma pontada de felicidade: já estavam percebendo sua mudança. E optou por dar uma resposta diferente da que sua “versão antiga” diria:

– A mudança exterior só reflete minhas transformações interiores. Decidi ser outra mulher. Agora sou uma mulher decidida, que vai aproveitar intensamente cada minuto e não vai depender dos outros para ser feliz.

Sem perceber, encaixou na resposta mais uns dois clichês e já pôde sentir um sangue novo.

- Ai, é isso mesmo. Te conheço tempo suficiente pra saber que estava na hora de você dar uma sacudida na sua vida, amiga. Faz bem.

A verdade é que ela estava cansada. Simplesmente cansada de tudo em sua vida. Não sabia se era pela sua última decepção amorosa, que havia acontecido oito meses atrás, ou por, subitamente, ter se dado conta do passar dos anos, mas o fato é que decidiu mudar. Seria uma nova mulher, pensaria de uma forma diferente, viveria outras histórias, enfim, seria outra pessoa.

Agora, sua principal característica era “ser decidida”. E seria mesmo. Por isso, teve certeza de que essa tinha que ser sua primeira atitude, a que seria a norteadora de sua transformação, como um Che Guevara de sua revolução interior: cortaria o cabelo. Nem quis pensar muito, pois sabia que era isso o que deveria fazer. E a atitude de cortar o cabelo por impulso era mais importante que o resultado: era o sinal de sua renovação.

Saiu do salão foi direto para sua loja favorita, pois queria comprar algo que representasse sua mudança. Se identificou com as peças da coleção que acabava de ser lançada, já que estava vidrada em tudo que tivesse a palavra “novo”. Como era uma mulher decidida, não pensou duas vezes: comprou o que lhe agradou, mesmo sabendo que isso lhe pesaria no fim do mês. Mas mulheres decididas sempre sabem como pagar suas contas, não é mesmo?

No caminho para casa, sentiu-se feliz por ter cortado o cabelo e comprado roupas novas, porém, lá no fundo, ainda não se sentia a mulher renovada que gostaria de ser. Bobagem. Afinal, precisava de mais coisas para perceber internamente sua mudança. E fundamental: precisava demonstrar sua mudança.

Assim que entrou em casa, ligou o rádio com o CD de sua banda favorita. Mulheres decidias escutam música alto e cantam sem se importar com o que os vizinhos vão pensar. E é bom que eles pensem mesmo. Aproveitou a animação para ligar para suas amigas de sempre e marcar de ir nesta noite para sua boate favorita. Era uma mulher mudada, e hoje suas amigas perceberiam isso.

Enquanto se arrumava, assistia sua novela favorita. Pediu comida no seu restaurante favorito.  Entrou nos seus sites favoritos. Visitou o perfil dos seus ex-namorados e peguetes. Até leu seu site de notícias favorito. Sempre repetindo a si mesma que era uma nova mulher. Uma nova mulher. Fazendo as mesmas coisas de sempre, mas uma nova mulher.

Chegou em casa frustrada, a noite havia sido péssima. Bem, a festa foi a mesma de sempre, mas seus planos de curtir como uma mulher renovada não deram certo. Suas amigas até elogiaram seu cabelo, mas nenhuma delas notou que a postura dela era outra. Nem as meninas, nem os rapazes. Se perguntava, afinal, como ela, uma mulher decidida, não havia conseguido ficar com ninguém? E olha que ela havia puxado conversa com dois carinhas que achou interessante (mulheres decididas têm alvará para puxar conversa com homens sem parecem promíscuas), mas não deu em nada. Nem a Piña Colada, seu drink favorito, estava
gostosa. Fiasco total.

Acordou com uma leve ressaca e borrada com a maquiagem da noite anterior (mulheres decididas podem dormir sem tirar a maquiagem). Enquanto assistia Sex and the City pela 15ª vez, se perguntava o que fazer para ser uma nova mulher. Já havia comprado roupas novas e cortado o cabelo, mas ainda era a mesma. O que falta?

- Você tem certeza?
- Muita certeza, quero pintar meu cabelo nessa cor.

Thiago Ibelli

Gostou? Curta, compartilhe, tuíte, comente!

Gostou muito? Cadastre-se para receber e-mail toda vez que o blog for atualizado!

Sobre Viver


Quantos de nós têm realmente vivido? Aliás, o que é viver? Você acredita mesmo no que passa a maior parte do tempo fazendo? Qual a finalidade do seu trabalho? Já percebeu que a maioria das pessoas trabalha a maior parte da vida apenas para ter dinheiro para se manter sobrevivendo?

O que de fato você faz para viver? Como é possível trabalharmos durante dias e aproveitar o tempo livre justamente para descansar e depois trabalhar mais? Quando você vive? Quantas horas da sua semana você realmente faz algo por prazer? E, o que é pior, quando você o faz, importa para outras pessoas ou serve apenas para liberar hormônios que lhe darão ‘prazer’? Que experiência vã e pequena, não? Acabam-se suas poucas horas de diversão, acabam-se os hormônios e o que você tem? Lembranças? Qual a utilidade? O que você leva contigo e o que deixa para os outros?

Sobrevivemos cinco dias para tentar viver dois. Sobrevivemos onze meses para tentar viver um. É possível? Com um cálculo simples, durante os 35 anos que você trabalha para poder se aposentar, você tem apenas três anos de férias. Se redistribuíssemos esse período, uma pessoa ficaria de férias dos 20 aos 23 anos e, depois, trabalharia sem descanso até os 55 anos de idade. Já pensou?

Leva-se a vida como pessoas dentro de um ônibus de turismo. Observa-se tudo pela janela e o que você faz é procurar por um bom assento e ficar parado, olhando e comentando. Você não quer ser incomodado, você mal quer se mexer. Eis que o ônibus chega ao ponto final, o passeio acaba e você desce. E aí? O que você deixou para as pessoas que farão o próximo passeio olharem pela janela? Você conseguiu sair do ônibus e fazer algo? Estar no ônibus, junto com todos, é sobreviver, é ir levando. Sair do ônibus e fazer algo é viver. Você vive? Ou observa? Cá entre nós, sejamos sinceros, sobreviver e observar é muito mais fácil. É simples seguir as regras, mover-se exige esforço.

E quando você faz planos para o futuro? Você se lembra que você já está vivendo? Você lembra que você pode fazer algo agora? Seu tempo já está contando, antes de se preocupar com daqui a dez anos, preocupe-se com o dia de amanhã.

O que você espera da vida? Qual o seu propósito? Ter filhos e poder manter sua prole, crescendo e reproduzindo, como todos os outros animais? Ter dinheiro, viajar e ter diversas experiências que só servirão para você? E quando você morrer, o que deixará na terra? De que forma você terá contribuído com esta jornada? O que estará escrito na sua lápide? Ótimo amigo, amado pela família? E daí? O que isso representa para o resto do mundo? Apenas mais um que veio e se foi sem acrescentar nada?

O que você faz para viver e o que você vai deixar para o mundo?

Thiago Ibelli

Amor, afinal…


Há séculos os mais diversos escritores e pensadores tentam dar a melhor definição de amor, mas até agora não se sabe qual chegou mais perto. Na minha humildíssima opinião, nenhum deles chegou nem chegará em uma definição que possa ser considerada consensual, pois o amor não é singular, tampouco simples. Ele varia de acordo com a forma que interage com outros sentimentos. Palpite meu, você acreditará que a melhor definição de amor é, na verdade, aquela que mais se aproxima do tipo de amor que você está sentindo ou ao mais forte que já experimentou.

Amor pode ser intenso ou relaxado, possessivo ou confiante, presente ou com saudades, apaixonado ou platônico, secreto ou cheio de provas, velho ou recente, reprimido ou exagerado, material ou abstrato, despercebido ou valorizado, breve ou eterno, incentivado ou proibido, rebelde ou comportado, poético ou objetivo, amigo ou admirador; pode ocupar sua mente o dia inteiro ou surgir apenas por um breve momento trazendo o conforto de amar e ser amado. Pode ser a certeza mais evidente do mundo ou pode ser descoberto justamente na perda.

Não precisa ser uma ferida que dói e não se sente. Pode se sentir, ou, simplesmente, pode não ser ferida. Você pode vê-lo arder, ou pode ver que ele não arderá. Pode ser um bem-querer, como pode não ser. Quem nunca viu amantes prejudicarem seus amados devido a um amor compulsivo?

A questão é que o amor não se manifesta sozinho. Ele se alia a outros sentimentos já existentes, se alimenta deles assim como os fortalece e herda suas principais características e defeitos, mudando, assim, de pessoa para pessoa, de relação para relação. Pense como é comum ver a mistura de amor com amizade, amor com companheirismo, amor com admiração, amor com compaixão, amor com confidencialidade, amor com posse, amor com orgulho e até, pasmem, amor com ódio. Como é comum ver o amor junto da paixão, como se fossem um só, aliás, confundindo os que os sentem. A paixão pode, inclusive, cegar os olhos de quem a sente para o fato que não há amor e, então, quando ela acaba, surgi um vazio e acredita-se que o amor se foi, quando, na verdade, ele nunca existiu.

Tentar achar uma característica única, existente em toda as formas de manifestação do amor e que não seja rebatida por algum ato impensado de quem ama é uma tarefa árdua. Confesso que não tenho esperanças de, até terminar este texto, achar algum adjetivo que possa ser usado em qualquer espécie de amor. Poderia ser “controverso” ou “disforme”? É, talvez, mas estes adjetivos não colaboram muito para a questão.

Pois bem, então, se não há algo único para as diferentes formas de amor, como sabemos que este sentimento realmente existe? Como saberemos se o amor, na verdade, não é um misto de sentimentos que cada pessoa sente à sua maneira e chama de amor? Se ele não pode ser definido, como sabemos que é “isso” que sentimos? A resposta talvez seja muito simples. Não podemos entendê-lo pois ele não foi feito para ser racionalizado, não é desta forma que ele existe. Ele habita, na verdade, o outro lado do cérebro, longe da razão e da procura por provas, num local onde não há perguntas pelo seu formato ou características. Nesta área, totalmente emotiva, mas não menos correta, há, apenas, uma certeza: quando o sentimos, sabemos que é amor.

Thiago Ibelli

Feliz futilidade!


Chegou na noitada com seus amigos Ralph, Tommy e o italianinho Giorgio. Fazia questão de apresentá-los a todos, pois, assim, se sentia mais seguro e autêntico. Logo de cara conseguiu chamar a atenção que queria e já encontrou um grupo que lhe agradou. Não reparou muito na menina do meio, não conseguiu perceber seus traços, muito menos prestar atenção ao que diria seu olhar, mas como ela estava com a Carolina e Chanel em evidência, certamente haveriam de combinar.

A maioria das pessoas naquela boate até gostava desses outros companheiros, mas ele os amava, era aficionado. Paradoxalmente, dava mais importância a esses amigos, que poderia comprar com dinheiro, que aos colegas de carne e osso que, em verdade, tinha em menor número.

Se aproximou da menina. Não trocaram muitas palavras, até porque não eram bons nisso e, naquele momento, não se interessavam muito pelo que o outro teria a dizer, desde que a conversa acabasse com um “sim”. Deixaram que seus amigos se entendessem e foram direto ao que lhes interessava: se beijaram e, aí sim, se entenderam bem. Juntos, compartilharam um sentimento: a felicidade em perceber diversos olhares em seu beijo. Individualmente, comemoravam mais um ponto no placar.

“Amor a primeira vista”, fariam questão de dizer a todos, dali a alguns poucos dias, enquanto tentavam provar ao mundo, através de seus perfis na internet, que formavam um casal lindo, digno de inveja.

No entanto, quando estavam a sós, uma coisinha causava incômodo. Em seus momentos íntimos, entre quatro paredes, não sabiam ao certo o que fazer. Abriam as janelas, ligavam a TV, procuravam seus amigos pela internet, mas ainda faltava algo. Quando não havia olhares para conquistarem ou corredores para desfilarem, faltava sentido nas coisas que faziam. Afinal, qual é a graça em ser feliz sem que os outros saibam?

Thiago Ibelli

Beleza Doentia


Ela tinha uma doença. Não muito rara, é verdade, mas de difícil diagnóstico. Tratava-se de um distúrbio ótico-neuro-emocional, que fazia com que visse apenas o lado bonito da vida, ignorando totalmente tudo o que era cinza e triste. Andava na rua vendo apenas as cores e belezas, as pessoas que sorriam e os animais bem cuidados. Tudo o que fugia a essa regra não era percebido por seus olhos doentes, muito menos registrado por seu cérebro limitado. E era feliz assim.

É claro que a vida que levava facilitava sua mazela. Vivia na mais rica região da sua cidade, habitada pelas pessoas mais vaidosas e pelas lojas mais refinadas, o que dificultava que percebesse a existência de seres que tinham as calçadas como cama ou de casas do tamanho do banheiro de seus pais. Realmente estava impassível a este contato. Quando, ocasionalmente, estava a assistir algum telejornal e a matéria trazia coisas sem cores e sem sorrisos, sua doença agia bloqueando sua atenção e desviando seus pensamentos para temas mais felizes e relevantes, como aquele professor engraçado da faculdade ou a próxima festa, que estaria cheia de pessoas legais. Era, de fato, refém de sua enfermidade.

Não era possível afirmar como a moléstia havia se desenvolvido pois havia diferentes formas de contágio. Algumas vezes, era hereditária, em outras, surgia já na fase adulta. Em seu caso, os primeiros sintomas foram percebidos nos primeiros anos da escola. Uma coisa era certa: quando a doença manifestava-se em pessoas muito próximas, ou todos a contrairiam, ou se afastavam, pois era difícil conviver com pessoas doentiamente felizes. Quem sofria deste mal tendia a se aglutinar e compartilhar de seus mundos alegres e perfeitos. Azar dos saudáveis, que estavam sujeitos a ficarem tristes.

Havia cura, apesar de não garantida, e o tratamento era à base de choque. Choque de realidade. Uma inserção numa comunidade paralela que estimulasse, simultaneamente, visão, audição, olfato e tato a sentirem coisas tristes e reais geralmente surtia efeito, pois a doença não conseguia evitar tantos estímulos em seu cérebro. No entanto, a maior dificuldade em obter-se a cura não estava na eficácia do tratamento e sim em convencê-la de se submeter a essa overdose de cinza. Afinal, se ela poderia viver para o resto de sua invejável vida vendo apenas coisas boas e sendo naturalmente feliz, por que iria se tratar e ser passível da feiura? Qual a lógica em sofrer com a realidade?

Como é comum nas doenças, a maioria das pessoas ao seu redor (exceto as também doentes), sentiam pena dela, que tinha seus pensamentos visivelmente afetados pelo seu olhar parcial. Em certos momentos, aos que não sabiam de sua enfermidade, sua fala causava desprezo e irritação. “Como é possível?” pensavam e julgavam a pobre doente. Mas ela não se abalava, pois interpretava este tipo de atitude como manifestações da inveja alheia.
E assim, como num belo conto de fadas em nosso mundo real, viveu feliz para sempre, morrendo nos braços da mais pura paz – a mantida pela ignorância opcional.

Thiago Ibelli

Vento


Sentia-o. E, para si, isso já bastava. Seus cabelos esvoaçantes apenas esclareciam que suas expressões de prazer não eram por sentimentos, mas por sentidos. Provava o perfume da maresia enquanto observava a água e a areia tentando acompanhá-lo, como se implorassem para serem carregados. Ouvia sua intensa percussão desritmada enquanto o degustava. Era totalmente abraçado por ele. Em sua cabeça não havia nada mais que o vento. E, para si, isso já bastava.

Thiago Ibelli

Orelhas de burro


- Por que eu estou perdendo meu tempo discutindo com você? Você tem orelhas de burro!

- Orelhas de burro? Ora, e por que EU estou perdendo meu tempo com você, tão infantil? Fala sério…

Dizendo isto, entrou no carro e começou a dirigir para casa. Orelhas de burro, ora essa. Como pôde ter perdido tempo discutindo com uma pessoa que mal conhecia e que tinha ofensas tão ridículas? Orelhas de burro, francamente. Há anos não ouvia alguém falar isso, aquela mulher devia ser professora do maternal ou coisa do tipo…Orelhas de burro…

Chegou em casa e, antes de ir dormir, resolveu lavar o rosto. Enquanto jogava a água na cara, parou e demorou alguns segundos para entender o que via no reflexo a sua frente. Um par de… orelhas de burro. Jogou mais água, esfregou mais o rosto e apertou os olhos com força. Olhou para o espelho e novamente elas estavam lá. No entanto, não se abalou, pois chegou a conclusão que tinha bebido mais do que havia percebido e que as palavras daquela mulher de fato invadiram sua mente. Resolveu ir dormir para tentar esquecer a história.

Acordou se sentindo esquisito, pesado e com um receio injustificável. Não queria pensar, mas estava com medo de que realmente existisse algo. Foi ao banheiro para liberar o resto da cerveja da noite anterior e passou pelo espelho sem olhá-lo. Mas, afinal, por que estava com medo de se olhar? Era óbvio que não havia nada de errado. Orelhas de burro. Só uma criança acreditaria nisso. Ou um burro. Riu nervosamente enquanto segurava o botão da descarga e percebeu que já estava nessa pose por algum tempo. Estava na hora de lavar as mãos e a pia, cruel que só ela, ficava abaixo do espelho. Coçou sua orelha. A humana, é claro, afinal, era o único par que possuía.

Deu um passo para o lado, com os olhos fixos na torneira. Bem, com a sua visão periférica poderia assegurar que, ao menos até a altura de seu nariz, não havia nada de errado. Tomou coragem e levantou o olhar. Seu coração disparou. Se arrependeu.

Lá estava um par de orelhas bizarras. Duas orelhas, bem cuidadas, diga-se de passagem, com 20 centímetros, cinzas, eretas e peludas. E de burro. Ficou estagnado. Mas que diabo era aquilo, afinal? Não podiam ser reais, é obvio, mas estavam lá, saindo de cada lado superior de sua cabeça. Definitivamente aquelas palavras haviam penetrado seu cérebro de forma anormal, bem anormal, fazendo com que visse tal deformidade. Podia vê-la, perfeitamente. Vê-la, era isso. Podia vê-la, pois era coisa de seu cérebro perturbado, mas poderia… tocá-la?

A idéia o deixou um pouco trêmulo. Iria provar a si mesmo que não estava louco e passaria sua mão por dentro da orelha, sem tocá-la, provando que era apenas uma ilusão. Levantou a mão. Tremeu. Não queria pensar, mas sabia que, se encostasse em tal bizarrice, seria a prova de sua existência. Tremeu. Respirou fundo. Avançou vagarosamente com a mão, de olhos fechados, por cima da cabeça. Quando a mão começou a ocupar o espaço em que deveria encontrar as orelhas, começou a ficar aliviado. A qualquer momento, agora, a mão terminaria de encobrir sua cabeça. Devia faltar pouco. Eis que, seu coração parou. Sentiu-a. Era peluda.

Abriu os olhos e se aproximou do espelho. Mas que coisa era aquela, afinal? Tomou coragem e a segurou. Era quente. Usou a outra mão para segurar a sua outra orelha. Puxou as duas para frente. Bateu com a testa no espelho. Ficou nervoso, puxou uma para cada lado e gritou de dor. Escorreu pela parede e sentou no chão. Abaixou sua cabeça, mas não sabia no que pensar. Afinal, não é todo dia que surgem orelhas na sua cabeça. Ainda mais, orelhas de burro. Maldição.

Era isso! Só podia ser uma maldição. Mas maldições não existem. Bem, orelhas de burro em pessoas também não. É, aquilo devia ser uma maldição. Então a mulher da noite anterior era uma bruxa ou coisa que o valha. Maldita… e agora? Bem, só resta saber quem ela é, de fato.

Correu para o computador e esforçava-se para lembrar o nome dela enquanto a máquina iniciava. Olhou para os lados, buscando uma resposta, mas encontrou algo mais importante. E assustador. Um porta-retrato com uma foto sua. E, junto, seus pares de orelhas, um humano, outro animal. Olhou para as outras fotos e não acreditou. Como era possível estar com duas gigantes orelhas naqueles dias também? Correu para o armário, jogou na cama todos os álbuns de fotos e procurou pelo mais antigo: seu batizado. Ao abri-lo, chocou-se. Lá estava ele, nas mãos do padre, parcialmente submerso na água benta e com um singelo par de orelhinhas cinzas, dobradas e fracas, sobre sua cabeça. Chorou de desespero. E não entendeu.

Mas Como? Como era possível aquilo? Nunca ouvira falar de nada parecido, nem através do Discovery Channel, e, de repente, ele próprio era a coisa mais assustadora que já vira. Um homem com orelha de burro. E como era possível ter levado tanto tempo para perceber uma anomalia dessas? Não sabia o que era mais assustador, as orelhas ou a forma como havia descoberto. Como assim, a pessoa mais honesta foi justamente um desafeto? E os amigos? Aqueles traidores.

Pegou o celular e ligou para seu melhor e mais antigo amigo. “Fala aí, cara”, atendeu ele. Começou a falar vagarosamente. No fundo, ainda havia a esperança de estar ficando maluco e de não haver orelhas, então esperou que o amigo interviesse caso estranhasse algo. Acertou, pois seu amigo ficou surpreso. “Puxa, é a primeira… vez que… você toca nesse assunto”. Seu estômago pesou. Uma pessoa acabara de confirmar que as orelhas existiam. Eram um assunto. Enfureceu-se. Culpou o amigo pela forma que havia descoberto que tinha um par de orelhas de burro, justamente através de uma inimiga. Chamou-o de traidor, falso, dissimulado. Perguntou como havia sido capaz de passar todos esses anos ao seu lado, sem chamar sua atenção para isso.

O amigo gaguejou. Não entendeu. Falando devagar, pediu desculpas, mas… como ia imaginar que ele nunca tivesse reparado num par de orelhas de burro em sua própria cabeça? Ao contrário, continuou o amigo, respeitava o que entendia como opção escolhida, de não falar sobre o assunto. Explicou que, se o possuidor das orelhas nunca havia feito um comentário sequer, nas mais diversas situações, não seria ele que iria fazê-lo. Reconheceu que, no começo achava estranho, mas a amizade dos dois era mais forte e isso era o que valia. Pediu novas e sinceras desculpas, mas garantiu que não imaginava que as orelhas nunca tivessem chamado a atenção do amigo.

Bem, apesar de totalmente esquisito, aquilo fazia sentido. Desligou o telefone dizendo que precisava pensar. Estava só, novamente, mas dessa vez com a certeza de que era anormal. Sempre fora. Desde a escola, nas festas dos amigos, andando na rua. Às vezes percebia que as pessoas o olhavam, mas sempre achou que era um rapaz chamativo. Não sabia o quanto. Na praia, nos jogos de futebol, nos almoços de família. Família.

Será que seus pais também tinham as orelhas? Voltou a olhar para as fotos, mas o único anormal era ele mesmo. Mas, por que seus pais nunca falaram nada? Por que seus pais nunca tomaram uma providência, nunca o trataram? Por que seus pais nunca fizeram nada a esse respeito? Ah, ia ter uma conversa muito séria com eles. Foi para a sala, sentou e aguardou. Era domingo, seus pais costumavam ir à missa. Mas quando eles voltassem…

A porta se abriu. A gritaria começou. Estava irado, revoltado. Berrou com os pais, inconformado. Como eles foram capazes de manter isso por anos e anos? Como nunca ofereceram tratamento? Como sempre o trataram como se fosse normal? Seus pais, por sua vez, não gritaram. Foi seu pai que começou a responder, enquanto a mãe secava as lágrimas. Inicialmente, explicou que, assim como seu amigo, nunca imaginaram que seu filho não soubesse que tinha um par de orelhas a mais. Depois, falaram que, quando era criança, os médicos avaliaram que a cirurgia para remoção das orelhas era de alto risco (já que esta estava ligada à sua cabeça, com vasos sanguíneos e nervos) e que preferiam ter um filho com orelhas de burro a perdê-lo. Concordaram que só cogitariam novamente a cirurgia quando o filho já estivesse crescido e ciente dos riscos. Desta forma, sempre o amaram e o trataram normalmente. Afinal, se nem os próprios pais o considerassem uma pessoa normal, quem o consideraria? Não queriam que o filho fosse traumatizado e, apesar disto ser aparentemente difícil, haviam conseguido até ali. Como o filho parecia não ter problemas com a orelha, nunca mais falaram sobre a cirurgia.

Chorou e foi abraçado pelos pais. As lágrimas escorriam como se tentassem compensar todo o tempo que não vieram à tona. Estava assustado, com a cabeça cheia e pasmo. Ainda estava se acostumando com a idéia de ter orelhas de burro, mas sentia como se realmente sempre as tivesse. Chorava porque tinha provas de amizade e amor verdadeiro. Amor. Havia sido amado por outras pessoas, que também deviam saber que ele era orelhudo. Já havia até namorado.

Decidiu que ligaria para ela. Sua ex-namorada, é claro, quem dividiu o amor por anos e anos. Quem mais no mundo provou a existência do amor acima de tudo? Afinal, diferente de seus pais, ela o havia escolhido, mesmo com seus particulares defeitos.

“Oi… Nossa, quanto tempo não nos falamos!”. Após uma breve conversa, para certificar que o outro também estava bem, veio a pergunta. Ela riu, achou que fosse brincadeira. Ele insistiu e foi surpreendido pela resposta.

“Orelhas de burro? Só lembro de ter visto quando nos conhecemos, durante aquele carnaval… foi quando eu falei ‘Bonita, sua fantasia, hein?’, e você disse ‘Que fantasia?’… rimos, nos conhecemos, ficamos pela primeira vez e, no dia seguinte, você já não estava mais com elas…”

Thiago Ibelli